sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

BORBOLETEANDO

Caladas, as duas criaturinhas estavam sentadas na calçada de miracemas, que emoldura o chalé de tijolinhos, observando as borboletas no seu vaivém sobre as flores. O canto derramado de uma cigarra, pousada num dos mais altos galhos do manacá florido, as inspirou a conversar.

- Elas gostam mais das lantaninhas amarelinhas, você não acha?
- Acho não! É só fazer as contas de quantas visitam as lantaninhas e de quantas passam lá na minha violeteira. As suas perdem de dez a zero.
- Pode ser. Mas, aquela enorme, preta e amarela, que parece um triângulo voador com frio na barriga, vale por mil e ainda não beijou a sua violeteira.
- Ah, é assim? Então, me diga se já viu algum rola-bosta nas lantaninhas.
- Deus me livre! Besouro nojento.
- Você fala assim por causa do nome, se eu houvesse dito escaravelho aposto que ia dizer que já viu muitos nas suas flores.
- Mesmo escaravelho eu não queria por perto, porque ninguém chama rola-bosta assim, e eu prefiro, no lugar dele, as abelhinhas que fazem mel pra adoçar o leite e a banana com aveia pra gente no café da manhã.
- Grande vantagem, elas também dão beijos nas minhas flores roxinhas.
- Isso é verdade.
- Agora, tem uma coisa que nunca passa nas suas lantaninhas.
- E por quê?
- Despreza flores rasteiras.
- Essa coisa deve ter nome.
- E tem.
- E qual que é?
- Adivinha?
- Sua imaginação não pode ser, porque, mais que rasteira, é rastejante.
- Vou fazer de conta que não ouvi e, de lambuja, dou mais duas chances.
- Acho que você quer inventar alguma história só pra ganhar de mim.
- Juro que isso não passa no meu quengo.
- Então, diz logo.
- E se eu quiser cozinhar o galo?
- Se for muito velho, vou embora, pronto.
- É não.
- E por que não fala de uma vez?
- Quero lhe dar mais duas chances de perder lutando.
- É uma coisa maravilhosa?
- É.
- Tem asas?
- Esquentou.
- Colibri?
- Ele mesmo. Acertou e perdeu. Como prêmio de consolação, você receberá em suas lantaninhas um rebanho de formigas cortadeiras. Agora, vamos colher pitangas.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

MULAS ELETRÔNICAS

Tenho enorme dificuldade para responder, na lata, às baixarias que recebo como um tabefe na cara. Inclusive, embora ainda não haja feito uma merecida avaliação, desconfio de que, quanto mais baixo, o golpe, mais demorada a reação. Essa abertura vem a propósito de um certo procedimento que vem sendo vigorosamente retomado, visto que foi uma constante durante todo o governo Lula, por pessoas amigas na Internet. Refiro-me às mensagens criadas, imagino, por centrais de difusão de lixo mental, que passam a circular na rede usando as pessoas no papel de mulas eletrônicas. Representação que não me surpreenderia se concebida sob inspiração das chamadas mulas que o tráfico internacional utiliza para espalhar suas drogas e misérias, em larga escala, no mercado mundial.

Eleitor do PT desde longa data, tendo ido às ruas na campanha de Lula contra Collor e comemorado a vitória do Picilóvi na Avenida Paulista, sou um excelente alvo para as estocadas dessas mulas reacionárias que a si arrogam o apanágio da inteligência universal. Assim, dia após dia, noite após noite, abro a caixa de entrada do correio eletrônico e lá estão as revelações deixadas pelas mulas eletrônicas. No contexto, nunca é demais lembrar aquela capa, publicada pela revista VEJA, espécie de Bíblia das mulas, estampando um pé na bunda do presidente escolhido pela maioria dos brasileiros e eiras. Em geral, as mulas eletrônicas investem contra o presidente Lula, apresentando-o como um chefe de quadrilha formada pelos maiores ladrões que o país jamais conheceu. Dona Marisa, esposa do presidente, surge como analfabeta e inútil à nação, como se a tal primeira-dama houvesse recebido votos que a obrigassem a ter um papel político proeminente no governo. As imagens do presidente Lula da Silva e sua esposa, dona Marisa Letícia Lula da Silva, brasileiríssimamente vestidos de caipiras, continuam rodando na rede, achincalhados por não possuírem a nobreza das famílias reais europeias. Há mais, coisas muito mais vis, muito mais, também divulgadas em páginas e blogs da Internet, que jogam sordidamente com a intimidade de quem ao nosso país governa, mas fiquemos com os exemplos citados, pois são suficientes para denunciar o caráter das mulas.

As mulas eletrônicas, assim como as mulas do tráfico de drogas, têm lá, evidentemente, seu papel. As primeiras carregam o produto no cérebro, enquanto as dos traficantes ainda não conseguiram chegar a tal requinte e apelam para expedientes mais prosaicos, transportando a droga em fundos falsos de objetos, recheando alimentos, impregnando materiais. No máximo, no organismo humano, acomodam cápsulas no estômago. As mulas eletrônicas nada recebem, para cumprir sua missãozinha asquerosa, além de um conforto íntimo, enquanto as mulas do tráfico são recompensadas, muitas vezes até generosamente, pelo capital, sempre sujo. Com suas mensagens suspeitas, as mulas eletrônicas devem achar que são capazes de viciar opiniões, quando comumente conseguem apenas torná-las mais sólidas em suas convicções, enquanto as mulas do negócio clandestino realmente ajudam a tornar pessoas dependentes químicos das substâncias que traficam. As mulas eletrônicas perdem tempo, assim como as mulas traficantes, pelo menos comigo.

domingo, 14 de fevereiro de 2010

PichaçõesEletrônicas

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

O NOME DO CÃO

- Oi, Mel, adivinha o que achei na rua e está aqui no escritório comigo?
- Você sempre me trata de Alda, que história é essa de Mel?
- Deu-me vontade de variar, inspirado no seu nome, meu bem.
- Meu nome é Esme, não melralda, sabia?
- Amô, seu humô, não colô.
- Desembucha de uma vez, que é que você tirou da sarjeta?
- Faça um esforço.
- Um elefante.
- Amô, seu humô voltô, mas ainda não grudô.
- Já se despediu novamente, fala logo.
- Você tem mais duas chances.
- Um apito do guarda de trânsito ou um cabo de guarda-chuva.
- Errou feio, pois se trata de um cachorrinho, Mel.
- O quê? Repete.
- Um bichinho sobre patas que emite um som parecido com au, au, au...
- Você só pode estar brincando comigo.
- Verdade, Mel.
- Pare de me chamar de Mel, não gosto disso, e vê se arranja, o quanto antes, alguém pra ficar com essa coisa aí.
- Não fala assim dele, que já tirei uma foto e lhe enviei, para escolhermos um nome. Você está na frente do computador?
- Estou, mas não vou olhar.
- Alda!
- Está bem, Matias, mas vá pensando no descarte.
- Alda?
- Ele é feio que dói, mas tão maltratadinho.
- Abandonado, Alda, mas a gente cuida e vai ficar lindinho.
- Qual seria o nome original do coitado?
- Alda, ele mal sabe latir, imagine falar.
- Seu grosso, espero que use os dentes contra você.
- Alda, eu penso em chamá-lo de Mania.
- Mania? Que horror!
- Sugira.
- Acho que tem cara de Biscoito ou Bolacha.
- Você não está mesmo a fim de colaborar, não é? Isso é nome que se dê.
- Está bem, Algodão.
- Por quê?
- Por esse tufo branco que tem na testa.
- Bem pensado, mas insisto com Mania.
- Ah, é, e por que motivo?
- Sinto que vivendo conosco vai adquirir significado.
- Você está insinuando algo que não consigo captar?
- Ao chegar em casa, conversamos sobre isso. Preciso desligar, o Mania está fazendo xixi no carpete, Mania, Mania! Droga, Alda, socorro, você não imagina o que ele resolveu aprontar agora...
- Cocô?
- Alda, me ajuda, ele está roendo o cabo de energia do computador!
- Converse com ele, diga que estou chegando, que é de pequenino que torço o pepino.
- Ufa, desistiu. Alda, veio roer o bico do meu sapato. Sai pra lá, Mania.
- Ainda não o conheço pessoalmente, mas já comecei a simpatizar com esse Mania.
- Está bem, Alda, vê se sai pra comprar ração pra filhote. Mania, para, Mania! Alda, depois eu conto, tenho que desligar. Tchau!

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

CONVERSA DE MATILHA

- Ela é meio estabanada.
- Meio?
- Biju tem razão, não foi só uma nem duas vezes que voltou das correrias, sem sentido, mancando de pedir muletas.
- O que pensa nossa mãe da recém-vinda?
- Com esse olhar por baixo da franja, aposto que pergunta de onde chegou esse desmantelo sobre patas.
- Sabe, Dadá, por falar em patas, eu analiso a figura pelas pernas visivelmente desproporcionais ao corpo, onde já se viu tal coisa entre Canis familiaris.
- Impenetráveis são os caminhos do Senhor, Glória.
- Na origem da espécie deve ter ocorrido algum desvio nas proporções.
- Coisa da idade, quem sabe? Nós, cockers, graças a Deus somos normais desde pequenas, com patas e corpo equilibrados, perfeitos.
- Eu adoro os galgos, um projeto esquisito, decerto, mas balanceado.
- Cá entre nós, minha paixão é o fila brasileiro.
- Nem quero imaginar, Biju, o assombro que sairia do cruzamento entre um fila e você, sua nanica encrenqueira.
- Mãe, me segura que vou ter um troço e bater nessa Glória.
- Filha, a Gló tem razão, cada macaca no seu galho.
- Às vezes fico com pena dela.
- De quem, mamãe?
- Dessa Panda. Muito medrosa, esconde-se por baixo da mesa como fugisse de novo abandono. Ainda não percebeu que a acolhemos, malgrado as diferenças, com amor.
- A mãe tem razão.
- Traumas, filhas, que porventura carregue a indigitada por toda a vida. Querem melhor exemplo do que o da Bela, que foge de vassoura como Drácula da cruz.
- Palmas para dona Maribel, por anunciar ao mundo minhas fraquezas.
- Só não vê quem não pode.
- Acho melhor mudar de assunto. Uma curiosidade feminina, amigas, por que será que a batizaram de Panda, que é um bicho tão bonito, tão grandalhão quanto fofo, quando ela é magrela, pernaltuda, deselegante?
- Com certeza pela pintura na cara, com aquela faixa que sobe, desde os buracos negros do focinho, e avança derramando-se feito nuvem sobre o pescoço e o peito.
- Dadá não mencionou um detalhe fundamental.
- Qual que a esquecida aqui pulou, au, au, au?
- Aquelas redomas escuras que emolduram os olhos e mais parecem olheiras de quem passa a noite latindo para o nada.
- Au, Bela, você poderia ter acrescentado como remate as orelhas, cujas não sabem se eriçam ou ficam como birutas ao vento.
- A coitada tem tentado imitar o estilo do meu orelhame, o que a torna ainda mais patética, com uma aba levantada e outra murcha.
- Ouçamos o que tem a dizer a tal. Fala alguma coisa, Panda!
- Eu estou muito feliz, junto com vocês todas, podem latir o quanto quiserem.

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domingo, 7 de fevereiro de 2010

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sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

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quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

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