segunda-feira, 23 de novembro de 2009

NOTA FRIA

Deputado vai às compras no supermercado.

- Boa tarde, doutor, CPF na nota?
- Só se for fria.
- Eu não entendo disso, melhor o senhor falar com o gerente.
- Quem é o seu chefe?
- Aquele acolá, nas proximidades do balcão de frios.
- Terno preto e gravata vermelha?
- Ele mesmo.
- Deve torcer pelo Flamengo, gente fina, deixe comigo.

A excelência vai até onde está o gerente.

- Boa tarde, meu filho.
- Boa tarde, doutor, em que posso ajudar?
- Fiz uma compra de umas coisinhas aí, para o Natal e Ano Novo, e gostaria de receber um tratamento especial por parte do estabelecimento.
- Doutor, qual o valor em questão?
- Quinze mil reais.
- O senhor é realmente um cliente especial. Vou providenciar, imediatamente, nosso cartão ouro, que lhe garante 60 dias sem juros, saques em dinheiro no limite de 50% das compras mensais e cartões gratuitos para sua esposa e filhos, a partir dos 16 anos.
- E para a amante, nada?
- O senhor é quem decide
- Estou brincando. Aceito a oferta, mas o problema que preciso resolver no momento é de outra ordem.
- Estou ao seu dispor, doutor.
- Desejo uma nota fiscal fria no montante gasto.
- Perdão, doutor, mas uma casa com a reputação da nossa não trabalha com esse tipo de operação.
- Pois deveria, para não perder clientes como eu.
- Mas, doutor, caso o fizéssemos, seríamos certamente autuados pelas autoridades, com as consequências que o senhor deve imaginar.
- Meu caro, eu tenho como sanar essa questão sem maiores problemas.
- Como, doutor?
- Aqui está meu cartão com meu e-mail e telefone particulares. Basta me ligar e o livrarei de qualquer encrenca. O senhor ganhará não só um grande freguês, mas um defensor do seu negócio.
- Mas, excelência, eu não fazia idéia de que o senhor era deputado federal. Vamos até o caixa, por gentileza.

Os dois se aproximam do caixa.

- Dona Aurora, a senhora atendeu este senhor?
- Eu mesma, Seu Ariovaldo, e pedi para ele falar com o senhor.
- Pois faça o seguinte: cancele a compra e fique à vontade para mandar, depois de mim, a excelência à puta que o pariu.
- Sim senhor, Seu Ariovaldo. Só isso?
- Por hoje, só.

domingo, 22 de novembro de 2009

PÍLULA DO DIA (pode ser tomada à noite)

Com a manchete – Lula, o mito, a fita e os fatos –,
a VEJA adota o estilo Rita Skeeter, de Harry Potter.

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

ENTRE OVELHAS E LOBOS

- Por que você berra?
- Ai, ai, ai, você está me matando.
- Calma, combinamos que o procedimento seria menos traumático sem anestesia.
- Concordo, mas você é a especialista.
- Alguma coisa deve estar errada.
- Mas, o quê?
- Como diabos é que vou saber?
- Bom, pimenta, na gengiva dos outros, é refresco.
- Parece, meu bem, que seu osso é fraco.
- Como assim?
- Você talvez sofra de osteoporose.
- Mas, eu estou com pouco mais de cinquenta...
- Trata-se de um problema que progride lentamente e, raramente, apresenta sintomas antes que surja algo mais grave como o que, parece, estamos enfrentando espontaneamente no momento.
- E esse sangue todo, meu Deus, já perdi mais do que tenho.
- Amor, não fale besteira, pois se fosse assim já estaria morta.
- Tem certeza?
- Absoluta.
- E agora, quando poderei tentar novamente o implante desse dente que compõe minha imagem perante o mundo?
- No mínimo, em seis meses, no máximo em um ano.
- Tudo isso?
- É o tempo de cura da osteoporose.
- Esper’aí: eu sempre ouvi dizer que osteoporose não tem cura, que no máximo dá pra retardar o desmanche.
- Isso depende da idade, meu bem. E, no caso dos dentes, a teoria ainda não conseguiu estudar a fundo casos na sua faixa etária.
- No meu caso, a ciência ainda tateia?
- Infelizmente, às cegas.
- Há alguma forma de saber se daqui a um ano meu osso estará no ponto?
- Pediremos uma tomografia computadorizada.
- Mas, eu ouvi dizer que essa coisa pode causar mutações genéticas.
- Bobagem, especulações da ignorância reinante.
- Com a tomografia, terei certeza de que o implante será bem-sucedido?
- Absolutamente.
- E se ela constatar que sofro de osteoporose?
- Na sua idade, minha querida, esse problema é raro.
- Mas, doutora, a senhora falou...
- Sugeri, não falei com convicção.
- Eu não entendo mais nada.
- E não precisa, basta confiar na sua especialista, minha ovelhinha.
- Béééééééééééééééééééééééééééééé...

terça-feira, 17 de novembro de 2009

ACENDÃO DA SILVA

- Amor, você pensou a mesma coisa que eu?
- Se foi apagar a luz do abajur, sim.
- A união faz a telepatia...
- E a força, mas eu não vi você tocar no interruptor.
- E não mexi mesmo.
- Então, faltou energia.
- Bem, às dez da noite, tanto faz.
- Confirma aí se estamos sob o domínio da escuridão.
- Tenho que desligar, porque ligada, e religar, certo?
- Perfeito.
- Breu, doçura, total.
- Bom, não precisamos de energia para às coisas derreter.
- Yes, vamos aproveitar a que temos.
- Ai, ai, ai, que é que você está fazendo?
- Esquentando as turbinas.
- Desse jeito, haverá sobrecarga, talvez eu não suporte.
- Vamos explodir esse transformador e derrubar o poste.
- Meu comutador.
- Minha corrente contínua.
- Meu curto-circuito.
- Louca, louca, louca! Ya sé que estoy piantao, piantao...
- Transo, Lugo, existo.
- Eu odiaria se, de repente, a lâmpada acendesse.
- Meu querido, me guie pelas sendas das trevas.
- Isso tem cheiro de frase de Paulo Coelho.
- Noite, a memória vagueia.
- Itaipu, Itaipu, o que seria de nós sem tu.
- Será que houve sabotagem?
- Em Itaipu, na pior das hipóteses, teríamos uma revolta dos peixes no lago.
- Imagino tempestades, raios, ventos, torres no chão...
- Calma, Lugo recolocará a bi na linha.
- Vai ser um choque pros dois lados. Fiat lux!
- Isso mesmo, agora, procura por aí fósforo e acende uma vela, preciso descobrir onde foi parar a caixinha com preservativos.
- O quê? Transamos sem?
- Alea jacta eeeeeest!
- Mas, e o nosso tão falado planejamento?
- Falhou, evidentemente.
- Bom, se for menina, como a chamaremos.
- Que tal Itaipuana?
- Que horror! E homem?
- Acendão da Silva – e não se fala mais nisso.
- Melhor que Apagão, mas tão horrendo quanto. Chega, esquece, vamos dormir.

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

PÍLULA DO DIA (pode ser tomada à noite)


Transo, Lugo, existo.

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

PÍLULA DO DIA (pode ser tomada à noite)


Não é um apagão de merda qualquer que nos
conduzirá a uma recaída no medo de ser feliz.

PichaçõesEletrônicas

terça-feira, 10 de novembro de 2009

AI! CAI DAS ALTURAS

Cala a boca Caetano
Ai! Cai das alturas
Cala a boca bárbara
Criatura
Guarda tuas idéias
Teu status dendê
Poupa a patuléia
Canta um iê-iê-iê
Guarda teus belos dentes
Tua larga risada
Adula tua gente
Que não entende nada
Se Pelé disse lóve
Lóve lóve
Lula disse picilóvi
Lóvi lóvi
Ao mirar teu sedém
Contra a verborragia
Tom Zé fez algum bem
Estancou uma via
Ao povo deixa estar
Mesmo analfabeto
Obrigado a votar
Atravessa teu deserto
Cala a boca Caetano
Ai! Cai das alturas
Cala a boca bárbara
Criatura

PÍLULA DO DIA (pode ser tomada à noite)


Na rádio Eldorado, chamaram o professor Belluzzo
de carcamano – é o preço por se meter no futebol.

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

AI! CAI NO NÍVEL SUPERIOR

- Minha cara
Chegue cá
Você vem à faculdade
Estudar ou s’amostrar?
- Seu diretor
Me entenda
Por causa desse calor
M’envelopei nessa venda
- Saiba que o ambiente
E a casa são de respeito
Por mais que esteja quente
Não se atreva desse jeito
- Se a saia justa ‘tá
E curta até demais
Não queira m’incriminar
Foi o vento por detrás
- Nosso causídico in loco
Doutor nas leis do direito
Comprovou o fato em foco
Dona moça tome jeito
- A reação das vestais
E eunucos de plantão
Vão entrar para os anais
Dessa instituição
- E a senhora vai sair
Por conta da expulsão
Pois levantou ao subir
Em clara provocação
- Bela academia esta
Abalada por um fato
Que à primavera entesta
Com esse carmim tão casto
- Não ponha na vestimenta
O que está na atitude
O seu gesto apimenta
Co’s panos nessa altitude
- Esta espartana arrelia
Supra-ética e moral
É pura hipocrisia
Fumaças de caporal
- Temos cá nossos valores
Princípios e padrões éticos
Defendidos nos rigores
E parâmetros ecléticos
- Ao MEC vou apelar
Pedirei apoio a UNE
Passei no vestibular
Isto não fica impune
- Do nosso comunicado
Não se retira uma linha
Afinal anúncio pago
Custa uma grana zinha
- Se lhes custou uma nota
Publicar o tal reclame
Espere caro janota
O processo do vexame
- Chega vamos encerrar
O leitor já está cansado
Vamos ter que aguardar
No futuro o resultado

sábado, 7 de novembro de 2009

APURAÇÃO

As duas conversavam, uma do lado de dentro e a outra de fora, quando me acerquei do balcão da lanchonete de guloseimas árabes Monte Líbano, ali no paulistano Largo Dona Ana Rosa. Encostei a suada carcaça, pedi uma aberta e passei a ouvir.

- Você amamentou?
- Hoje, não, ela tem catorze anos e está na escola.
- Não se faça de desentendida. Estou perguntando sobre quando ela era pequena.
- Oito meses, mas, se deixasse, acho que até agora estaria pendurada feito uma bezerra insaciável. Tirei na marra.
- O meu sugava o leite e o meu sangue junto, uma sanguessuga que também nunca teria largado o peito se eu facilitasse.
- Tenho um primo que, depois que a mãe resolveu retirar o bem-bom, passou a dormir com a mão sobre a fonte.
- Por que será?
- Sei lá.

Pedi licença, concedida, para dar um palpite, recorrendo ao surrado chavão, Freud explica. Uma delas resolveu me questionar sobre essa história, ‘que todo mundo fala sem saber bem do que se trata’.

- Esse tal de Freud também mamou muito?
- Isto, eu não sei, senhora.
- Aposto que é um tipo...
- Era, senhora, já bateu as botas.
- Está certo. Um daqueles que sugou até os oito anos.
- Eu não conheço esse lado da história dele, da qual, aliás, sei muito pouco.
- Mas, para explicar, ele devia ter conhecimento de causa, pode escrever.
- Escreverei.
- Que explicação ele dava?
- Falava sobre um desejo de relações sexuais que o filho sente pela mãe.
- Esse Freud só podia ser louco.
- Desculpe-me, se radicalizei, porque o que o mestre queria dizer era sobre a existência de uma certa disposição de comportamento, inconsciente, para uma ligação excessiva à mãe com ciúmes em relação ao pai. O tal Complexo de Édipo.
- Melhorou. E com as mulheres, o que acontece?
- Aí, minha senhora, quem explica é um tal de Jung, dizendo que elas têm desejo de relações com o pai. Chama-se complexo de Electra.
- Tudo isso por causa da amamentação?
- Difícil de entender, não é?
- Esse Jung também já bateu as botas?
- Sim.
- Eu acho que esses dois inventaram essas idéias porque nunca mamaram.
- Se a senhora estiver com a razão, a coisa é grave, merece apuração.

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

PichaçõesEletrônicas

terça-feira, 3 de novembro de 2009

PichaçõesEletrônicas

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

TORNEIRINHA


Algum mecanismo de defesa os impede de reconhecer aquilo que seus olhos, andar e hálito costumam denunciar. Insistem em não dar o braço a torcer, enquanto as pernas fazem das tripas coração para conseguir encostar a carcaça numa parede, árvore que venha a calhar ou veículo parado, coisa corriqueira em nossas ruas, ou estacionado tangente ao meio-fio. Eles são os cachaceiros das cidades, por uns achincalhados, por outros fingidamente respeitados, mantendo relações diversas com ambos os grupos. Um exemplo do primeiro caso, retirado da Rua Gama Cerqueira, Cambuci, nesse feriadão de Finados em 2009. Os nomes e apelidos que aqui aparecem, evidentemente, são tão falsos quanto a idéia dos norte-americanos de implantar a democracia em terras alheias. Exceção ao Bar da Branca. Avante!

- E aí, Torneirinha, já encheu o caneco hoje?
- Eu enchi sua mãe de filhos, seu vagabundo.
- Calma, rapaz, o álcool já lhe subiu à cabeça a essa hora da manhã, não consegue dizer coisa com coisa...
- Vai procurar sua turma, encostado.
- Então, fica parado aí que vou trazer a rapaziada, pra carregar você até seu doce lar.
- Acabei de sair da sua e não preciso de ajuda pra chegar na minha.
- Ué! O pronto-socorro não fica na direção contrária?
- Vai tomar...
- Já fui, no Bar da Branca, mas a dona me disse que você secou todas.
- Vai, vai, vai...

E o peitica se pirulita mesmo, em geral, entre risadas, satisfeito como se houvesse cumprido a missão diária de importunar a vida no dia dos mortos. Entre os supostamente respeitadores, estão os vizinhos que, de certo modo, acompanham a luta da família para manter, sem sucesso, o sujeito na linha. Aqueles que, vez ou outra, ajudam o pinguço a encontrar o caminho da roça, conversam com a conformada mãe ou irmão, e se vão, depois da boa ação, com a consciência tranquila e a alma mais leve.

- E aí, Torneirinha, já tomou uma hoje?
- Que nada, fui até a padaria comprar pão.
- Mas, eu vi você saindo do Bar da Branca.
- Passei lá pra dar um alô.
- E onde está o saquinho com os franceses que a mamãe espera pro café?
- Nossa, esqueci os pães lá no balcão.
- Você quer que eu vá buscar?
- Obrigado, não se preocupe, eu mesmo vou.
- Posso ir mais rápido que você.
- Eu me lembrei de que me esqueci de dar um recado pra dona do boteco.
- Bom, não seja por isso, eu resolvo. Qual é a mensagem?
- Coisa particular, entre nós. Pode ficar sossegado que eu volto e pego o pão.
- Cê que sabe, mas lembre-se do provérbio: pão achado não tem dono.

domingo, 1 de novembro de 2009

AI! CAI DE BUNDA

Se a bund’abunda
Exaltemos então:
Há bunda!
Cantemos em hino
As linhas e relevos
E passemos a mão
N’área calipígia
Ou esteatopígia
Dessa geografia
Abundosa e fértil
Pouco importa a visão
Se usarmos o tato
Qu’amolega e evita
O desvio teórico
D’intelectos ocos
Uma banda d’um lado
Outra espelho perfeito
Ambas formam a bunda
Em verso e prosa una
Massa malabarista
Garupa eufemística
Solta no espaço infindo
Mas há bundas e bundas
Como a realidade mostra
Umas que não abundam
Nem desbundam platéias
Muito pelo contrário
Nunca em calendário
D’oficinas mecânicas
Todavia equilibram
Como todas as bundas
O vaivém do esqueleto
Importante é saber
Aparências enganam
Onde a bunda
Não abunda
Exuberante e farta
Só importa que basta
Cumpre ali seu papel
Não são nádegas ao léu
Nem soberba de raça
É pura bunda e pronto
Lá não está de graça