
Algum mecanismo de defesa os impede de reconhecer aquilo que seus olhos, andar e hálito costumam denunciar. Insistem em não dar o braço a torcer, enquanto as pernas fazem das tripas coração para conseguir encostar a carcaça numa parede, árvore que venha a calhar ou veículo parado, coisa corriqueira em nossas ruas, ou estacionado tangente ao meio-fio. Eles são os cachaceiros das cidades, por uns achincalhados, por outros fingidamente respeitados, mantendo relações diversas com ambos os grupos. Um exemplo do primeiro caso, retirado da Rua Gama Cerqueira, Cambuci, nesse feriadão de Finados em 2009. Os nomes e apelidos que aqui aparecem, evidentemente, são tão falsos quanto a idéia dos norte-americanos de implantar a democracia em terras alheias. Exceção ao Bar da Branca. Avante!
- E aí, Torneirinha, já encheu o caneco hoje?
- Eu enchi sua mãe de filhos, seu vagabundo.
- Calma, rapaz, o álcool já lhe subiu à cabeça a essa hora da manhã, não consegue dizer coisa com coisa...
- Vai procurar sua turma, encostado.
- Então, fica parado aí que vou trazer a rapaziada, pra carregar você até seu doce lar.
- Acabei de sair da sua e não preciso de ajuda pra chegar na minha.
- Ué! O pronto-socorro não fica na direção contrária?
- Vai tomar...
- Já fui, no Bar da Branca, mas a dona me disse que você secou todas.
- Vai, vai, vai...
E o peitica se pirulita mesmo, em geral, entre risadas, satisfeito como se houvesse cumprido a missão diária de importunar a vida no dia dos mortos. Entre os supostamente respeitadores, estão os vizinhos que, de certo modo, acompanham a luta da família para manter, sem sucesso, o sujeito na linha. Aqueles que, vez ou outra, ajudam o pinguço a encontrar o caminho da roça, conversam com a conformada mãe ou irmão, e se vão, depois da boa ação, com a consciência tranquila e a alma mais leve.
- E aí, Torneirinha, já tomou uma hoje?
- Que nada, fui até a padaria comprar pão.
- Mas, eu vi você saindo do Bar da Branca.
- Passei lá pra dar um alô.
- E onde está o saquinho com os franceses que a mamãe espera pro café?
- Nossa, esqueci os pães lá no balcão.
- Você quer que eu vá buscar?
- Obrigado, não se preocupe, eu mesmo vou.
- Posso ir mais rápido que você.
- Eu me lembrei de que me esqueci de dar um recado pra dona do boteco.
- Bom, não seja por isso, eu resolvo. Qual é a mensagem?
- Coisa particular, entre nós. Pode ficar sossegado que eu volto e pego o pão.
- Cê que sabe, mas lembre-se do provérbio: pão achado não tem dono.
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