As duas conversavam, uma do lado de dentro e a outra de fora, quando me acerquei do balcão da lanchonete de guloseimas árabes Monte Líbano, ali no paulistano Largo Dona Ana Rosa. Encostei a suada carcaça, pedi uma aberta e passei a ouvir.
- Você amamentou?
- Hoje, não, ela tem catorze anos e está na escola.
- Não se faça de desentendida. Estou perguntando sobre quando ela era pequena.
- Oito meses, mas, se deixasse, acho que até agora estaria pendurada feito uma bezerra insaciável. Tirei na marra.
- O meu sugava o leite e o meu sangue junto, uma sanguessuga que também nunca teria largado o peito se eu facilitasse.
- Tenho um primo que, depois que a mãe resolveu retirar o bem-bom, passou a dormir com a mão sobre a fonte.
- Por que será?
- Sei lá.
Pedi licença, concedida, para dar um palpite, recorrendo ao surrado chavão, Freud explica. Uma delas resolveu me questionar sobre essa história, ‘que todo mundo fala sem saber bem do que se trata’.
- Esse tal de Freud também mamou muito?
- Isto, eu não sei, senhora.
- Aposto que é um tipo...
- Era, senhora, já bateu as botas.
- Está certo. Um daqueles que sugou até os oito anos.
- Eu não conheço esse lado da história dele, da qual, aliás, sei muito pouco.
- Mas, para explicar, ele devia ter conhecimento de causa, pode escrever.
- Escreverei.
- Que explicação ele dava?
- Falava sobre um desejo de relações sexuais que o filho sente pela mãe.
- Esse Freud só podia ser louco.
- Desculpe-me, se radicalizei, porque o que o mestre queria dizer era sobre a existência de uma certa disposição de comportamento, inconsciente, para uma ligação excessiva à mãe com ciúmes em relação ao pai. O tal Complexo de Édipo.
- Melhorou. E com as mulheres, o que acontece?
- Aí, minha senhora, quem explica é um tal de Jung, dizendo que elas têm desejo de relações com o pai. Chama-se complexo de Electra.
- Tudo isso por causa da amamentação?
- Difícil de entender, não é?
- Esse Jung também já bateu as botas?
- Sim.
- Eu acho que esses dois inventaram essas idéias porque nunca mamaram.
- Se a senhora estiver com a razão, a coisa é grave, merece apuração.
sábado, 7 de novembro de 2009
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